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P ara quê andarmos uma vida à procura de uma definição, de uma verdade, de uma teoria, para justificarmos que a nossa vida está certa, se, quando menos contamos, elas nos pregam a partida, deixando-nos, como o amor que nos atraiçoou ou se esgotou, sós. De onde vem esta dependência do amor e da razão, sabendo que o amor se começa a gastar a partir do momento que começamos a amar, e a verdade, senão na vida, certamente na História se gastará. Apesar da crise, quem mais se tem aguentado é, ainda, Deus. Melhor, a nossa necessidade dele. Pelo menos não nos abandona,como a utopia, insensível a uma entrega de uma vida, a ela sacrificada, abandonou a tantos. Gasta-se toda uma vida na construção de uma utopia, que afinal não estava lá!
Veio Cristo falar-nos de um novo reino, que nunca mais vem, senão depois de não ser necessário. Vieram depois os manifestos revolucionários a anunciar a vinda do paraíso social da igualdade, que, ao sê-lo, deixou de o ser. Sem reino, sem Deus e sem História, restam os mitos de Cristo e de Che-Guevara, dizendo-nos que a única realidade é o símbolo, pois a própria realidade não tem salvação. Graças à sua mitificação, só para eles o martírio não foi em vão. Os outros são sempre menores, ninguém os conhece, ninguém os recordará. Quantos santos têm, apesar de cada dia terem o seu, o seu dia santo de guarda? Hoje sabemos, ateus do além e do aquém, que o único milagre que existe é não haver milagre algum. O reino, para uns e para outros, não chegou nem chegará, conforme o desenharam o Apocalipse e os Manifestos.
Não passamos de excelentes actores. Acreditamos naquilo que representamos, apesar de crermos que representamos aquilo em que acreditamos. O que é preciso redimir? Onde está a queda? Num desvio da Natureza, no pecado, nas classes? O homem: um salto qualitativo? A História: um salto qualitativo? A consciência: um salto qualitativo? Para o abismo. Quanto menos se tem, melhor. E que loucura quando se tem a consciência de ter nas mãos a força de Deus e do Diabo. Assim, como Deus pode existir? Afinal, onde ir? Afinal, onde ficar? Afectivamente, só fica o que nos abandonou, o que nos deixou, o que nos atraiçoou. Como podemos deixar de amar uma mulher que nos deixou? Bem mais fácil era deixá-la, se ela tem ficado connosco. Para onde ir? Onde ficar? O ficar está sempre condenado a gastar-se e o ir sempre encontrará onde ficar. E aí fica. Apodrecendo. Os génios sempre deram conta cedo deste jogo da cabra-cega. Negam-se a jogá-lo e entretêm-se a inventar o seu. E quem não pode fugir-lhe? A matéria é um demiurgo de olhos vendados, animado por um vício ontológico: o jogo. Tudo é filho da brincadeira das coisas, uma historieta que só o é depois de a ser e cada um uma personagem, sem qualquer importância real, no meio de milhões. Pela arte, o remorso ontológico, que mal eu fiz para existir?, aparece consciente. Demasiado consciente: para quê esta inutilidade e precariedade estatísticas de sermos? Peças de dados que não lançamos nem comandamos, rolamos, aos trambolhões, no chão da existência ou no verde de uma mesa de casino. Uns e outros rolamos aqui ou ali, por sorte, até que a inércia que os animou se transfira para outro lugar, ditando o fim à brincadeira. Só a inércia é eterna. Quem ganha sempre é o jogo.
Apolo é uma brincadeira de Dioniso. A essência do mundo, é ele, Dioniso. Nós, os dados nas suas mãos, numa noite de casino. O génio rouba os dados a Deus, monta o seu casino e constrói, sob o olhar invejoso dos deuses, o seu universo. Sonhado, mas dele. E quais as personagens mais reais: as que ele inventa ou as que Deus criou, nós? Por mais que andemos chegamos sempre a Macbeth: não passamos de «… um conto contado por um idiota, um conto cheio de barulho e de fúrias, mas que nada significa».

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